Crônica – Voo Noturno (O Extraordinário da Vida)
Na crônica de Omar Dimbarre: O Voo Noturno revela a busca da alma por compreensão nas sombras da noite e nos desafios da vida.
Por Omar Dimbarre
A noite já havia derramado sua negritude sobre o vale. Suspensa no espaço, a lua cheia e deslumbrante irradiava sua luz por toda a terra.
Um cansaço leve tomou conta de mim, e logo deitei-me. Minha mente errante, tal qual um lobo em busca de sua presa, pôs-se a vagar.
Perdido em devaneios, pus-me a meditar sobre as perdas, as dores e as dificuldades que se erguem em nossa trajetória.
Se há tantas provações e desafios pelo caminho, o que afinal torna nossa existência algo extraordinário?
De repente, uma pequena luz adentrou a casa, rodopiou ao meu redor e pousou na parede — um pirilampo, nômade assim como minha imaginação naquele instante.
Passei a acompanhá-lo. Voou novamente sobre mim — parecia querer convidar-me para uma viagem. Esse ritual repetiu-se diversas vezes, até que finalmente tranquei meu medo a sete chaves e aceitei o convite.
Montado sobre o vagalume, como um cavaleiro em seu cavalo encilhado, saímos sem rumo. Não conseguia entender como aquilo era possível: eu, sentado sobre um animal tão pequeno. Mas não fiquei buscando explicação para aquele evento surreal.
Perambulamos ao léu e pousamos sobre a torre da igreja. Um idoso caminhava lentamente, como se carregasse nos ombros o peso de todos os anos vividos. Parou sob nós.
Seu rosto esculpido com rugas — talhadas pelo tempo — descortinava uma jornada árdua. Segurava algo em suas mãos calejadas.
Meu condutor alçou voo e descemos até o chão. Consegui então decifrar o que carregava: um ramalhete de flores silvestres, colhidas em algum lugar da cidade — a dureza da vida não lhe furtara a sensibilidade. Seriam aquelas flores para sua amada?
O ancião prosseguiu em sua jornada e, na espreita, o seguimos. Morava próximo e, como se estivéssemos cobertos por um manto de invisibilidade, entramos juntos em sua morada.
Um beijo em sua esposa, um afago em seus cabelos, sorrisos e flores para expressar seu grande amor. A refeição preparada com carinho, posta na mesa — a espera pelo amado valia cada segundo. Risos, conversas e sentimentos pulsando em cada palavra trocada.
Havia algo celestial naquele momento: simples em sua forma, divino em sua essência. Uma paz colossal tomou conta de mim, e saímos a rondar pela cidade novamente.
Uma cena lancinante se desenhava à nossa frente: um jovem embriagado, tropeçando em seus próprios passos, tentava seguir adiante — o álcool mostrando sua face mais cruel. Tentou prosseguir, não resistiu e desabou. Esforçou-se e conseguiu colocar-se de pé novamente.
Um outro moço, trajando uma calça jeans desbotada, surgiu como uma presença iluminada. Abraçou seu amigo e ajudou-o a seguir avante em seu caminho tortuoso. As pisadas descompassadas daquele rapaz encontraram, assim, seu rumo — martírio e conforto revelados em um mesmo quadro, a amizade expondo sua face mais sagrada: o compartilhamento do sofrimento. Uma lágrima brotou em meus olhos seguida por um sorriso tímido, de quem prevê que aquele gesto de solidariedade iria dar um novo rumo àquela história.
Os dois amigos sumiram bruscamente, e seguimos em frente. Acordes dissonantes de violão entrelaçados com uma voz desafinada, trazidos pela brisa, esparramavam-se pela rua. Um garoto enamorado tentava construir versos para sua estimada namorada. A sua criação ainda mostrava-se desajeitada e frágil — mas isso não empalidecia o seu sonhar. E era neste desejo de presentear sua querida com uma criação sua que residia a beleza daquele gesto.
Um vento sussurrante cortou nossa passagem, trazendo consigo um jornal velho. As luminárias que banhavam nossa estrada começaram a piscar — ora apagavam, ora acendiam — em um jogo soturno de luzes e sombras. O pio tenebroso de uma coruja fez com que um calafrio percorresse minha espinha. Apanhei o noticiário em minhas mãos: em meio à penumbra, consegui ler um obituário relatando a morte de uma pessoa desconhecida.
A claridade voltou a prevalecer, e o choro de uma criança recém-nascida então ecoou pela rua. Aproximamo-nos da janela, origem do soluçar daquele bebê. Uma canção de ninar entoada por seus pais o acalmava.
Havia chegado a hora de retornar. Desembarquei em minha cama; o pirilampo prosseguia com seu voo dentro de casa. Emitia piscadas rítmicas — um bailado para atrair uma parceira. Uma fêmea, encantada com a apresentação, pousou na parede e deu uma piscada. O vagalume prosseguiu com seu cortejo, recebendo vários lampejos dizendo “Sim”.
Alçaram voo juntos; suas luzes, uma magia poética criada pela natureza, fascinantes igual a estrelas perdidas no firmamento, iriam agora iluminar uma cerimônia nupcial na mata.
Esbocei um sorriso no rosto:
— O extraordinário está por todos os cantos. Basta ter olhos aguçados para enxergá-lo.

Omar Dimbarre é produtor cultural, colecionador de cartazes originais de cinema, minerais e fragmentos de meteoritos. É apaixonado por artes — especialmente música e cinema —, fascinado pela natureza e por histórias populares, desenvolvendo projetos que visam recuperá-las.
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